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Fichas radiofónicas (12) – um percurso profissional: Alfredo Alvela

Alfredo Alvela (1934-1994) foi locutor, realizador e repórter da rádio. Talvez a memória maior dele seja na área da reportagem. A sua carreira começou em 1950 no Emissor Eletromecânico (Porto), de onde passou em 1956 para Rádio Clube Português, após concurso. Ele também se candidatou à Rádio Renascença, ainda a funcionar na rua da Alegria, ficando em segundo lugar na classificação. Esta estação, logo depois, mudaria para o sétimo andar de edifício novo na rua Sá da Bandeira. Enquanto repórter, nos anos finais da década de 1950 e ao longo da década de 1960, Alfredo Alvela fez trabalhos sobre a pesca do bacalhau, inaugurações da ponte da Arrábida e de barragens do Douro Internacional, visitas ao Porto da rainha inglesa Isabel II e do presidente brasileiro Juscelino Kubitschek, campeonatos de hóquei em patins, voltas a Portugal em bicicleta, digressão do Orfeão Universitário do Porto aos Estados Unidos (1968) e programas em emissoras de língua portuguesa nos Estados Unidos e cobriu um desastre ferroviário de Custóias, a cheia do rio Douro em 1962 e o naufrágio do navio Silver Valley e salvamento da tripulação.

Com Humberto Branco, também de Rádio Clube Português, ele assinaria desde fevereiro de 1967 o programa diário Clube da Juventude (22:30-00:00), com a frase “Em cada jovem há um homem, em cada homem houve um jovem; mantém em ti o jovem” a acompanhar o indicativo do programa. Além do disco, a preocupação dos dois realizadores foi ter rubricas culturais de literatura, artes plásticas, filatelia, jazz, aviação, poesia, cultura física, música de concertos e participação de ouvintes através de cartas (Nova Antena, 16 de janeiro de 1970). Outra rubrica em que ele entrou foi, na segunda metade de 1967, Norte 67, com entrevistas a gente da cultura e da arte (a partir do meu livro Os Microfones da Rádio. Do Portuense à Delírio).

Nas suas memórias escritas num blogue, o embaixador Francisco Seixas da Costa recorda que, com 18 anos, se apresentou nos estúdios do Porto, na rua de Ceuta, a pedir “emprego”, ao tempo em que fingia estudar engenharia. Alfredo Alvela abriu-lhe as portas do seu Clube da Juventude, onde realizou durante meses Tempo de Teatro, com textos do João Guedes e jingle com efeito de eco, feito no vão do elevador do prédio. O mesmo embaixador lembra-se que, por vezes, pela noite dentro, Rui de Melo lhe entregava a emissão de Onda Noturna, onde ele ficava a “pôr discos” e a dizer banalidades serenas, no tom que o programa exigia.

Alfredo Alvela foi um dos profissionais que se mudou do Porto para Lisboa (houve profissionais que fizeram o percurso inverso, como Rogério Leal, com toda a carreira ao serviço da Emissora Nacional, e Ilídio Inácio, este apenas partindo de Santarém, para os Emissores do Norte Reunidos). A sua entrada no programa PBX (dos Parodiantes de Lisboa) foi essencial para essa transferência (Diário Popular, 20 de abril de 1970). A rádio ficou a ganhar. Por isso, Alfredo Alvela fez parte também do riso dos Parodiantes de Lisboa. Na rubrica “Rádio Crime”, ao lado de Rui Andrade (autor dos textos e com a personagem Ventoinha), de Callaty Santos (Buraquinho), José Andrade (inspetor Patilhas), ele desempenhou papéis vários (Flama, 24 de março de 1972). Ele também trabalhou em programas de Ruy Castelar, vivendo até em sua casa, durante algum tempo (testemunho pessoal de Ruy Castelar).

Num dos episódios do programa de João Paulo Diniz, No Ar, História da Rádio Em Portugal (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/no-ar-episodio-6/) – uma das grandes fontes para estudar a rádio em Portugal –, ele é recordado como tendo feito, entre outras reportagens, a de 25 de abril de 1974 no largo do Carmo, em Lisboa, quando Marcelo Caetano se rendeu aos militares revoltosos (cerca do minuto 5:30 para a frente no episódio).

Mas Alfredo Alvela foi também repórter a 26 de abril, junto à prisão de Caxias, e a 28 de abril, a acompanhar a viagem de comboio que trouxe Mário Soares do exílio para Lisboa. Às primeiras horas de 26 de abril de 1974, Alfredo Alvela entrou no forte de Caxias e recolheu os primeiros depoimentos dos presos políticos ali encarcerados (Armando Pires estava com ele). Ainda nessa manhã, pelas 11 horas, Rádio Clube Português deu a ouvir aos portugueses, pela primeira vez, relatos de torturas, espancamentos, terror e morte, vividos naquela prisão política (testemunho pessoal de Armando Pires, coautor da reportagem e cuja fotografia aqui publicada pertence ao seu espólio). Nesta reportagem de Caxias, Alfredo Alvela teve a preocupação de dizer constantemente as horas do acontecimento, um pormenor aparentemente insignificante, mas a dar conta da marcha do tempo (testemunho pessoal de Manuel João Coelho).

Da reportagem sobre Mário Soares, conta-se uma história muito curiosa, a da cassete. Na manhã de 28 de abril, caía na redação de Rádio Clube Português a informação de que Mário Soares, regressado do exílio, viajava para Lisboa no Sud-Express. A Emissora Nacional enviara para Vilar Formoso o repórter Mário Meunier para entrevistar Soares durante a viagem. Conhecedor do percurso do comboio Sud Express e antigo profissional de Rádio Ribatejo (Santarém), estação do universo de Rádio Clube Português, Armando Pires apresentou um plano suscetível de antecipar a informação e bater a Emissora Nacional. Armando Pires partiu de automóvel com Alfredo Alvela (a quem tratava por Alfa), deixando-o no Entroncamento, última paragem do comboio antes de Lisboa, enquanto Rádio Clube Português dava instruções a Rádio Ribatejo para abrir a linha telefónica quando necessário para uma operação específica. O jornalista entrou no comboio (Entroncamento), entrevistou Soares e, conforme o combinado, atirou a Armando Pires, pela janela do comboio, à passagem pela estação de Santarém, uma cassete com a entrevista. Dez minutos depois, mesmo sem ser editada, a entrevista estava no ar. Deviam ser 12:30, meia hora antes da chegada do comboio a Lisboa. A entrevista realizada pela Emissora Nacional só foi para o ar muito tempo depois (testemunhos pessoais de Armando Pires e Ana Isabel Reis).

Em julho de 1974, João Paulo Guerra e Alfredo Alvela embarcavam num voo da TAP para Bissau. Os dois, que tinham trabalhado no programa PBX, eram os únicos passageiros, aquele em reportagem para a Emissora Nacional, este para Rádio Clube Português. Em Bissau ajudaram-se no que foi possível e testemunharam acontecimentos inesquecíveis como a greve geral de 3 de agosto de 1974, em Bissau, no aniversário do massacre de Pidjiguiti. João Paulo Guerra separou-se do colega porque conseguira o exclusivo de viajar até áreas da Guiné controladas pelo PAIGC, com Alfredo Alvela a despedir-se com a sentença: “amigo não empata amigo”. De maneira que beberam à despedida e o primeiro seguiu rumo a Canjambari (testemunho pessoal de João Paulo Guerra). De outros trabalhos de Alfredo Alvela como repórter, realço o de 1975 em Helsínquia, quando fez a cobertura da Conferência de Segurança Europeia, integrando a comitiva do presidente da República, general Costa Gomes (testemunho pessoal de José Lourenço). No funeral do cantor José Afonso (fevereiro de 1987), ele fez uma reportagem fantástica (testemunho pessoal de Isabel Gonçalves).

Nos últimos anos de vida, Alfredo Alvela regressou ao Porto, à RDP-Antena 1, cidade onde faleceu a 1 de fevereiro de 1994 em circunstâncias não esclarecidas, quando vivia em pensão na rua Galeria de Paris, paralela à rua Cândido dos Reis, onde se situava a sede portuense da RDP (testemunho pessoal de Fernando Maciel). Ana Isabel Reis cruzar-se-ia com ele em 1988-1989, a indicar o tempo de volta ao Porto. Era diretor de informação José Gabriel Viegas e ele regressara ao Porto por intermédio de António Bondoso (testemunhos pessoais de Fernando Maciel, António Bondoso, Ana Isabel Reis e Manuel Costa Monteiro). As cerimónias fúnebres realizaram-se na Igreja da Trindade. Os últimos anos de vida tinham sido penosos.

Fotografias de relatadores de futebol

As três fotografias – das que conheço com relatadores de futebol – que mais gosto. Há dias, editei fotografias de relatores (ou relatadores) de futebol. Mas publico agora as melhores imagens que eu conheço (duas já as tinha colocado aqui).

1) Celestino Leston Bandeira, início da década de 1970, sul de Angola. Creio que a acompanhar o clube da Jamba, que subiria à primeira divisão no território. Não sei se o encontro foi na Huíla ou no Moxico, mas sei que a imagem tem um enorme valor sentimental para o então radialista de Rádio Clube da Huíla (Lubango). Além dele, do seu pequeno filho ao lado e dos técnicos, ressalto o fundo, com o sol a entrar na máquina fotográfica e a estreitar a representação dos assistentes, dando uma dimensão algo fantasmagórica (imagem retirada da sua página do Facebook). Em livro que já preparei sobre a história da rádio em Angola, conto histórias de superação técnica para emitir relatos em localidades com dificuldades de ligações telefónicas.

2) Orlando Dias Agudo, no começo da década de 1970. a relatar um jogo Ujpest-Benfica para a taça dos campeões europeus, com resultado desfavorável para a equipa portuguesa. Além do relator, a fotografia tem um pormenor evidente, o polícia politico a tentar compreender a ação linguística daquele. Faz-me lembrar um filme de “suspense” de Hitchcock. Foto do arquivo do autor (que eu copiei para aqui há pouco tempo).

3) Alfredo Quádrio Raposo (Rádio Nacional, 10 de julho de 1948). Ele foi o primeiro relatador de futebol da Emissora Nacional. A fotografia tem muito má qualidade (copiada de cópia de cópia) mas tem uma grande beleza para mim. A postura em diagonal, como se fosse uma pintura a buscar a perspetiva, as boinas de Quádrio Raposo e colega ao lado, o microfone com sistema de segurar no pescoço e a ideia impressionista causada pela indefinição da imagem, em especial se se procurar a multidão que assiste ao jogo.

Fichas radiofónicas (11) – um percurso profissional: Tany Belo

Em 1959, Luís Filipe Costa revelava-se como noticiarista, acompanhado de Tany Belo (Maria Albertina da Silva Belo da Costa, 1931-1974) e técnico Alberto Seabra. Por via disso, nasceu uma relação muito próxima entre o noticiário da APA (“Jornal da APA”, 19:30-20:10), de que Luís Filipe Costa era responsável, com a depois chefia, por este, dos noticiários da estação (1961). Do casamento de Luís Filipe Costa com Tany Belo nasceu um rapaz.

Nem sempre a primeira experiência com o microfone resultava bem, como reconheceu a locutora, estreada aos dezasseis anos na Rádio Universidade (Plateia, 22 de junho de 1965). Pouco depois, começou a atividade de locutora profissional nos passatempos APA, no teatro Éden. Este era um programa de variedades, com cantores novos e concursos, depois transmitido pela rádio, apoiado em publicidade. “Sensibilidade, boa voz e cultura” eram os ingredientes fundamentais para um locutor, segundo Tany Belo. Em 1959, em Rádio Clube Português. António Miguel, Armando Marques Ferreira, Edite Maria, Julieta Fernandes, António Revés e Tany Belo constituiriam a primeira equipa do programa “Meia-Noite”. Tany Belo preferia a locução direta e improvisada, por ficar com a sensação de comunicar espontaneamente com os ouvintes.

Ela acumularia a atividade com experiências como locutora de publicidade, no teatro ligeiro, ela que começara no teatro de revista (Plateia, 6 de maio de 1969), e no filme “Vendaval Maravilhoso” (de José Leitão de Barros, 1949, a partir de novela de Jorge Amado), sobre a vida do poeta brasileiro Castro Alves, que lutou pela abolição da escravatura dos negros, e o seu romance com a atriz portuguesa Eugénia Câmara, papel interpretado por Amália Rodrigues. No filme, com um pequeno papel, a locutora aparece identificada como Albertina Belo. O filme sofreria muitos cortes devido ao tema.

Já em 1967, os seus programas eram “Clube do Disco” (Rádio Clube Português, Porto, das 15:30 às 15:58), “Rádio Jornal” (Rádio Clube Português, das 19:30 às 20:00, todos os dias em onda média), “Banda Sonora” (Rádio Clube Português, da 1:00 às 2:00 em FM) e “A Noite é Nossa” (Rádio Clube Português, das 3:00 às 6:00), programa de Ruy Castelar que sucedera a “Sintonia 64” (Plateia, 29 de agosto de 1967). Em 1968, ela era uma das vozes femininas das Produções Carrocel (Antena, 1 de janeiro de 1968). Tany Belo foi igualmente locutora de Rádio Renascença e manteve, durante anos, uma coluna de aconselhamento na revista Plateia. O “Clube do Disco” era um programa que poderia ter pernas para andar porque se tratava mesmo de um clube que tinha cartão de identificação, emblemas de lapela e propunha-se enviar discos para qualquer parte do mundo, o que na altura não era fácil (testemunho pessoal de Ruy Castelar).

A locutora faleceria em janeiro de 1974.

Imagens: Nova Antena, 3 de janeiro de 1969, Antena, 1 de janeiro de 1968, Flama, 24 de Março de 1972 (a interpretar programa dos Parodiantes de Lisboa), Diário Popular, 18 de janeiro de 1974, cartaz do filme.

Fichas radiofónicas (10) – indicativos e separadores

O jingle é uma pequena composição musical, normalmente cantada e com duração até um minuto. Gostaria de lhe chamar indicativo de programa, conquanto a palavra de origem americana existente desde a década de 1920 tenha muito uso também no nosso país. Constitui uma apresentação de rubrica, a sua personalidade e identidade. Também pode funcionar como separador de programação e substituiu o gongo, carrilhão ou sino das emissões das primeiras décadas da rádio.

Em Portugal em 1970 um indicativo custaria cerca de dez contos (cerca de três mil euros a preços de 2020, segundo o conversor da Pordata). Na sua realização, além do compositor, entravam cantores e instrumentistas. O último jingle composto até esse momento por Jorge Costa Pinto seria gravado por uma orquestra de dez músicos (Diário Popular, 13 de fevereiro de 1970). Não consegui descobrir nenhum jingle do compositor.

Fichas radiofónicas (9) – os intocáveis

“Intocável” é alguém ou entidade que não pode ser atacado ou criticado, porque protegido por pessoas ou instituições poderosas, diz o dicionário. Mas aqui o significado é diferente.

Paulo Fernando e Orlando Dias Agudo foram os responsáveis da rubrica Os Intocáveis em Rádio Clube Português: “apesar de feita em tom ligeiro, ainda que sério, tem suscitado todo um mundo de controvérsia”, lia-se na legenda que anunciava o programa (Nova Antena, 14 de fevereiro de 1969). Logo depois, Orlando Dias Agudo explicaria a razão da rubrica, surgida ainda em 1967: “apontar aquilo que de mau ia surgindo no panorama musical português” (Nova Antena, 14 de março de 1969). O alvo era somente a música portuguesa e em especial as letras das canções. Com apenas dez minutos de emissão semanal, o programa constituiu um grande êxito.

O grande impacto do pequeno programa era o som de um disco a partir-se. Os autores tinham gravado o ruído de um disco a quebrar-se no chão e acompanhavam a sua crítica de intocável com essa passagem sonora “catrapum, zás, catrapaz”, a conceder mais realismo. À facilidade de gravar um disco – como escrevia o jornalista: “hoje, qualquer bicho careta pode gravar um disco” – os autores da rubrica propunham qualidade. Claro que a iniciativa causaria aborrecimentos aos autores, mas, ao mesmo tempo, teria havido editoras que pediam para eles tocarem os discos por si editados. As frases-chave do programa eram “falem de mim nem que seja a dizer bem” e “este disco é intocável mas felizmente não inquebrável, por isso vamos parti-lo”. São duas frases tão criativas como é a rádio. Há disto na televisão ou na internet? E onde está, a não ser na rádio, a magia do som e as vozes certamente graves e sérias daqueles senhores a dizerem isto?

Esta rubrica – que deve ter dado muito prazer aos pequenos patifes😁 Paulo Fernando Tac-Tac e Orlando Dias Agudo – devia voltar agora. Quando ouço alguns músicos e letras das suas canções fico pelos cabelos. Como rimar bruxa com Fatucha ou geleia com teia ou esfreguei-a. Ou as vozes. Cá em casa, a um cantor chamamos-lhe o “arrasta móveis”. O rapaz até tem simpatia e boa presença, mas não canta.

Orlando Dias Agudo é um homem culto e que eu estimo – pelo que mando um abraço daqui. Aliás, ele, pouco depois, receberia o prémio Maria Matos de teatro, jornalismo e rádio pelo trabalho “Maria Matos – uma vida ao serviço do teatro” (Nova Antena, 10 de abril de 1970).

Fichas radiofónicas (8) – uma equipa de noticiaristas há 50 anos

“Os telexes nunca param no seu matraquear. […] Os ouvidos atentos ao telefone. Os gravadores prontos para o registo em fita magnética. […] A rapidez da comunicação constitui o primeiro requisito para o valor da notícia. […] O bom serviço que ali se faz é também um consequente do profissionalismo dos homens que trabalham no SN [serviço de noticiários] do RCP [Rádio Clube Português]. […] Num constante alerta, o noticiarista vive o seu período de trabalho, entre a secretária e o microfone, selecionando, emendando, ampliando por vezes a informação e dando-a ao ouvinte na melhor oportunidade. […] Quando a informação colhida não é bastante e o acontecimento o justifique, o SN do RCP recorre à colaboração dos Serviços de reportagem ou aos Serviços de escuta. E deslocam-se repórteres para os locais ou captam-se e gravam-se as estações de rádio que forneçam notícias sobre o facto” (Nova Antena, 31 de janeiro de 1969).

O texto, assinado por A. Leston Martins – uma verdadeira lição de jornalismo radiofónico -, incluía fotografias e pequenos currículos dos noticiaristas. Registo várias características, a primeira das quais a frequência universitária de alguns deles: Manuel Bravo no Instituto Superior Técnico, Luís Filipe Costa (não indica a Faculdade), João Paulo Guerra (que abandonou por “incompatibilidade temperamental com o curso” de medicina😖). Depois, as designações internas, como Paulo Fernando, o Tac-tac, e as origens profissionais de alguns deles: APA (publicidade), rádio de Goa. Além do galardão em 1966 dado ao serviço de noticiários pela revista “Ondas”.

Os noticiários eram de hora a hora e curtos. Mas havia um de maior extensão, no começo da madrugada. A informação constituiu, desde 1961, uma das principais marcas da estação, já a funcionar na rua Sampaio e Pina, em Lisboa, depois de muitos anos na Parede.

Fichas radiofónicas (7) – relatos desportivos

O futebol e outros desportos mobilizaram desde sempre a rádio. Nos Estados Unidos, o basquetebol foi uma das modalidades a ter transmissões com grande impacto na cultura popular. Em Portugal, e na Europa em geral, o futebol têm tido a primazia. Até a linguagem se reinventa, casos de “Ripa na Rapaqueca” ou “O que é que é isso, ó meu?”, de Jorge Perestrelo, a mostrar momentos menos expressivos do jogo, e “a bola beijou a malha da noiva” ou “não vale a pena chorar, Tibi”, como um locutor brasileiro ao serviço de uma rádio no Porto exclamava quando havia golo. Tibi era guarda-redes ao serviço do F. C. Porto.

As tecnologias de transmissão de um jogo desportivo sempre chamaram a minha atenção. Centro-me em Rádio Clube Português, de que falei recentemente de um helicóptero e de um avião. Hoje, escrevo sobre um carro de exteriores, com transmissão no longínquo ano de 1939, fotografado no dia do desafio de futebol Portugal-Suíça (Nova Antena, 18 de setembro de 1970). A fotografia tem uma dedicatória assinada por Domingos Lança Moreira, radialista sempre dedicado aos desportos. Da fotografia, destaco os quatro colaboradores da estação, todos identificados pelo vestuário e pelo boné, e os dois altifalantes por cima da cabina de condução. Julgando não haver erro de paralaxe, o carro é mais alto atrás da cabina de condução, a indiciar que os operadores podiam quase circular de pé dentro do veículo.

Ora, um carro de exteriores significa parafernália tecnológica dentro do campo desportivo. Junto imagens significativas, a primeira bem conhecida, com Artur Agostinho (e equipa técnica) a relatar um desafio em abril de 1947 (arquivo da RTP), junto à linha lateral do jogo, sujeito ao tempo e às bocas da assistência ao jogo, por detrás dos profissionais. As outras duas imagens mostram os profissionais Mário Cília, Horácio Santos e técnico Jorge Mata (Produções Lança Moreira) e Fernando Correia e técnico (Nova Antena, 26 de setembro de 1969), já numa cabina, com um ângulo de visão melhor porque num lugar mais alto e fora do escrutínio direto dos assistentes ao desafio.

Fichas radiofónicas (6) – Rádio Renascença – Porto

Faço aqui um rápido excurso à Rádio Renascença, no Porto. A estação começara a emitir em Lisboa (janeiro de 1937), com emissores de ondas médias e ondas curtas, e no Porto (maio de 1941). D. António Castro Meireles, bispo do Porto, lançou a bênção da estação naquela cidade. Inicialmente, a emissão portuense resultou de música gravada e transmissão do programa de Lisboa, captado em ondas curtas. O horário era: todos os dias (20:00-23:00), sábado (19:30-23:00), domingo e quinta-feira (12:00-13:00, 19:30-23:00). Algum tempo depois, a estação transmitiria a missa dominical a partir da igreja de Cedofeita (12:00). Com a chegada de um emissor potente, de 10 kW (janeiro de 1957), e anúncio de montagem (maio de 1957), além do abandono das velhas instalações da rua da Alegria, 411, 1º, para os estúdios de prédio novo na rua de Sá da Bandeira (outubro de 1959), a Renascença do Porto tornou-se uma das mais importantes estações da cidade.

Dos nomes mais conhecidos da estação, retenho quatro: Jorge Peixoto, Olga Cardoso, Fernando Rocha e padre Eloy Pinho.

Do percurso de Olga Cardoso, retiro duas ou três notas. A primeira, a da gravação de um diálogo com Américo Graça, escritor de peças radiofónicas, pelo que ela seria convidada para a equipa do teatro radiofónico da Orsec. Depois, integrou a equipa do teatro radiofónico de Rádio Clube do Norte, com Ilídio Inácio, Fernando Rocha e Regina Borges. Olga Cardoso e Fernando Rocha faziam habitualmente de personagens más, enquanto Ilídio Inácio desempenhava as boas personagens. Nunca lhe fizeram uma espera para bater na personagem má mas, um dia, num transporte público, ouviu duas senhoras a falarem do que tinham ouvido no dia anterior, uma segunda-feira, dizendo mal da sua personagem. Ela colaborou em programa de grande importância na rádio portuense, ainda antes de ir para a Rádio Renascença, Última Hora, de Carlos Silva, o pioneiro dos programas após a meia-noite. Olga Cardoso foi a primeira voz feminina e Carlos Silva a primeira voz masculina a aparecerem na rádio depois da meia-noite. O programa era basicamente musical e tinha textos para dizer com a voz da noite. Os ouvintes gostavam muito. A locutora gravava os seus textos durante o dia, mas havia ouvintes que julgavam que ela estivesse também à noite. Apenas Carlos Silva ficava no estúdio para a emissão em direto, Olga Cardoso tornou-se muito conhecida na Renascença pelo programa Despertar e, depois, fez um programa na televisão.

Jorge Peixoto era, no início da década de 1970, uma das vozes mais ouvidas na rádio portuense. Era locutor e repórter, parecendo gostar mais desta atividade, como indica na entrevista à Nova Antena, de 11 de setembro de 1970. Para ele, que estudava germânicas, o locutor devia ter uma cultura geral vasta, a incluir língua portuguesa, história da música, teatro, psicologia, para evitar que fosse um mero leitor de títulos ou capas de discos.

Imagens: festa de homenagem a Olga Cardoso (na fotografia com Fernando Rocha, que forneceu os materiais fotográficos) em 7 de dezembro de 1986, entrevista a Jorge Peixoto, fotografia tirada ainda na primeira sede da rádio no Porto: Reinaldo Andrade, Fernando Rocha, Maria Eugénia Machado e Daniel Gonçalves.

Fichas radiofónicas (5, 4ª parte) – Locutoras

Hoje, último texto sobre locutoras, não vou escrever sobre as pioneiras da Emissora Nacional, Áurea Rodrigues ou Maria de Rezende, da elitista (para mim, que a escolhi para a capa de um livro meu) Helena d’Eça Leal ou da aventurosa (porque trabalhou em Angola) Joana Campina Miguel. Talvez fiquem para outra ocasião. Nem sigo as entrevistas de Luís Garlito.

O meu objetivo, agora, é lembrar as populares Mary e Maria Leonor. Sim, os seus nomes de família desapareceram das notícias. A primeira chamava-se Mary Torrant Rodrigues; com esse nome só podia ser inglesa. A página publicada na Nova Antena, de 20 de fevereiro de 1970, indica que ela começou a falar ao microfone em fevereiro de 1937, a primeira voz feminina na rádio portuguesa. Eu duvido, pois a Emissora Nacional já tinha as suas duas pioneiras. Então, a estação da Parede começou identificada com um novo indicativo musical, Caravana, de que não sou capaz de dar mais informações. Dela, ficaram a longevidade na função na estação e as suas fotografias de penteados significativos (e de uma imagem maternal com Álvaro Jorge e Jorge Alves, género trio maravilha da rádio).

Maria Leonor Pereira Magro foi uma espécie de primeira dama da rádio. Dela, colhi a impressão de rabugenta (a queixar-se de muito trabalho e de salário baixo) mas também de voz influente, capaz de ultrapassar as querelas trazidas pela revolução de abril de 1974. Dela retenho a entrevista dada ao jornal Ponto (edição de 19 de fevereiro de 1981), a apresentar-se como mulher que luta com problemas de solidão e sem esperança. Então, tinha 58 anos de idade e 36 anos de profissão, um filho de 31 anos e divorciada de Pedro Moutinho, outro locutor famoso na época. Ela nascera em Lisboa, no bairro da Estrela, e vivia na Calçada das Necessidades – aqui misturando simbolismo com ironia. Dela, ficaram fotografias inolvidáveis, como a de grupo de notáveis da Emissora Nacional (Domingos Lança Moreira, Alberto Represas, Francisco Igrejas Caeiro, entre outros, com ela de mão dada ao marido) e de outra, do casal, e que já reproduzi aqui (cerca de 1945 e pertença do espólio da RTP).

Fichas radiofónicas (5, 3ª parte) – Locutoras

[ainda a partir de entrevistas feitas por Luís Garlito]

Maria Júlia Guerra: “No princípio de 59, um colega que tinha ficado aprovado nesse mesmo concurso, chamava-se João Pedro Baptista, ele é ainda o produtor de um programa que está no ar, convidou-me para eu dar a voz ao programa que eu vou dizer o nome: Quando o Telefone Toca. Que se gravava na Rádio Renascença. […] aquilo não era nada, não me dizia nada. Mas sempre pensei desta maneira: aceitar as oportunidades, isto profissionalmente, e chegar a conclusões. […] Quando entrei para a Rádio Renascença, para o Quando o Telefone Toca, foi na altura que a Renascença começou a trabalhar também durante a tarde. Só abria um pouco de manhã e ao final da tarde. Começou o programa O Diário do Ar do Paulo Cardoso e era necessária uma locutora para estar de serviço nesse tempo. Então eu tive de fazer novo concurso na Rádio Renascença. Lembro-me que todos os textos me foram dados pelo Henrique Mendes, que, na altura, era uma vedeta da rádio e da televisão. Fiquei aí e fui aprovada e fiquei lá cinco anos e sete meses a fazer variadíssimos programas. Foi uma escola muito boa”.

Ida Maria: “aconteceu pura e simplesmente porque sabe-se que eu percebia um pouco de futebol e Helder Sobral na altura era chefe do departamento desportivo. Ouviu falar disso, convidou-me. Tive muito pouco tempo de treino porque teve todos os avales e avançou comigo a toda a velocidade. E eu, de facto, quando me convidaram achei que era a altura ideal porque era meter uma mulher essencialmente num meio que era masculino. […] Foi o Sporting-Académica em Alvalade. Não saiu muito mal. Eu já tinha um certo calo, perdõem-me a expressão, mas é uma expressão radiofónica no assunto. Depois, daí, sim, é que houve alguns em que me atrapalhei. Mesmo sem fazer o relato se não bocadinhos. Agora havia coisas que me saíam sempre bem que eram as intervenções do campo ou o comentário porque, de facto, eu sei um bocado de futebol”.

Natália Bispo: “Já namorávamos [ela com Humberto Mergulhão]. Tinha um contrato em Benguela. Era o chefe de produção do Rádio Clube de Benguela. Não havia vaga para mim, mas como eu também nunca quis depender de ninguém e só vivia mediante aquilo que eu ganhava, porque eu fazia questão disso, desde rapariga, desde jovem. Aceitei o convite do Aires Teixeira, então diretor do Rádio Clube de Moçambique, onde me pagaram as passagens, etc. Estive lá uns meses. Entretanto, acontece uma vaga no Rádio Clube de Benguela. E então eu fui para o Rádio Clube de Benguela. Indemnizei o Rádio Clube de Moçambique de todas as despesas que fizeram comigo, meti-me num avião e fui para Benguela” [parte da vida profissional de Natália Bispo foi, depois, a partir de 1964, na Emissora Nacional].

Lily Santos Frias: “Quando eu ia a qualquer lado, faziam-me andar. Eu até gostava… porque tinha tanta popularidade nessa altura [interpretou o papel da coxinha no folhetim A Força do Destino em Rádio Graça]. Faziam-me andar que era para ver se eu realmente era coxa. Como é que se fazia? Isso punha-se uma madeira mais alta e outra mais baixa no estrado e eu ia andando e aquilo ia para baixo e para cima e ouvia-se tac-tac-tac. […] Eu casei na igreja de S. Vicente [já na vida real, com Octávio Frias, sonoplasta da estação]. Eu ia a descer a rua da Verónica e comecei a ouvir… parecia assim um barulho de moscas. Um zumbido. Disse. “mas que é isso”? O meu pai não meteu a polícia, porque nunca pensou […]. Aquela gente veio a saber e então, quando eu cheguei, eram pessoas em cima das árvores, em cima dos telhados. Tudo. Estava lá muita gente. E o chefe de cerimónias, quando eu ia a entrar para o carro, aquelas pessoas vinham todas sobre mim na ideia de me cortarem um bocadinho o vestido para ficarem com ele. O chefe de cerimónias vai puxar a porta com toda a força, mas esqueceu-se lá do dedo”.

Imagens: Maria Júlia Guerra (Nova Antena, 17 de outubro de 1969),Ida Maria (e Galiano Pinheiro, Flama, data que não consigo identificar) Natália Bispo (anúncio de programa de variedades, Jornal de Notícias, 18 de fevereiro de 1950), Ricardo Isidro, o médico da “coxinha do Tide” (na falta de imagens de Lily Santos, o seu parceiro no folhetim, Plateia, 21 de janeiro de 1969)

Fichas radiofónicas (5, 2ª parte) – Locutoras

Maria Helena Varela Santos: “tinha sempre o costume de cantar, a cantarolar, ao mesmo tempo que as músicas estavam a passar. E os artistas, quando eles cantavam, eu cantava também. Eu conhecia as músicas todas, de trás para a frente e da frente para trás. E então estava um dia nos meus gorjeios e nos meus trinados… e eu tenho a impressão que era um técnico que vocês já cá tiveram aqui, que o programa esteve a entrevistar, tenho a impressão que foi o José Ribeiro. Que, de repente, talvez de conivência com o Jorge Alves, resolveu abrir o microfone [do programa “A Onda do Optimismo”, Rádio Clube Português] e fechou e só se ouvia a música baixinho e então eu comecei a ouvir os meus trinados. Direto. Fiquei apavorada”.

Etelvina Lopes de Almeida: “Comecei como redatora do jornal infantil que havia na Renascença, O Papagaio. Com havia uma estação de rádio lá e eu tinha já o bichinho da rádio comigo oferecia-me para trabalhar sempre que os meus colegas não podiam. Entre eles o José Castelo que depois foi para a BBC de Londres e eu passei a fazer as emissões da hora de almoço. Claro que havia naquela altura quando nós tínhamos de fazer uma emissão da hora de almoço nós tínhamos de escolher os discos, saber os textos que íamos dizer, fazer o noticiário, ligar os bicórdios à estação mãe. Era tudo, não havia apoios absolutamente nenhuns. Isso exigia um esforço muito maior. Também nos dava uma aprendizagem muito útil. Quando concorri ao concurso da Emissora Nacional eu trazia já comigo essa experiência de dois ou três anos na Rádio Renascença. Entrei no concurso, fiquei. Eram duas vagas de mulheres para 200 concorrentes. Fiquei eu e a Joana Campina que viemos substituir a Maria de Rezende e a Aura Rodrigues, que foram as primeiras locutoras da rádio”.

Maria Carlota Álvares Guerra: “resolvi fazer um programa na Rádio Renascença que se chamava A Hora da Mulher. Era um programa semanal. Convidei o meu amigo Joaquim Pedro para fazer o programa comigo. Tratava de tudo que se relacionava com a mulher. Naquele tempo, ainda se podia fazer coisas desse género sem ser muito ridículo. Agora não tenho pachorra para ler revistas femininas. Sou capaz de ler o Paris Match, uma Visão, com notícias mais válidas do que as modas. Depois de A Hora da Mulher, aconteceu-me uma coisa muito gira que foi os produtos de beleza tal tal da minha saudosa amiga Bertha Rosa Limpo, que tinha uns produtos de beleza, da altura de O Livro do Pantagruel, convidou-me para fazer um apontamento na 23ª Hora. Aí é que foi o grande boom. Eu fiz uma coisa muito bonita e ainda hoje penso que era muito bonita. Escrevia um apontamento, dirigia em cada noite uma crónica a uma mulher que eu tinha na cabeça, a uma senhora que estava em casa porque tinha torcido um pé e estava muito aborrecida porque não sabia o que havia de fazer à vida e eu falava com ela, uma senhora que tinha um filho em África onde andava aos tiros e que andava muito triste, como também tive em dada altura, uma senhora que não tinha emprego”.

Imagens: Maria Helena Varela Santos (Flama, 10 de abril de 1959), Etelvina Lopes de Almeida (https://arquivos.rtp.pt/…/o-que-e-feito-de-si-etelvina-lop…/), Maria Carlota Álvares Guerra (Rádio e Televisão, data que não consegui identificar).

“Alerta Está”

Três militares – alferes Júlio Isidro, furriel Nunes Forte (*) e soldado Cândido Mota – no Pavilhão dos Desportos (Lisboa), para o programa Alerta Está, de Rádio Voz de Lisboa, destinado a militares e a suas famílias (Nova Antena, 23 de maio de 1969). Outros apresentadores foram Aurélio Carlos Moreira e Henrique Mendes.

Texto acrescentado por Nunes Forte:

“Este espetáculo – noticiado pela Nova Antena com a minha foto (*) trocada com a de Luís Cruz, meu ex-colega do Rádio Ribatejo – foi totalmente realizado por mim, inspirado no programa Alerta Está, que fundei e apresentei nos EAL / Alfabeta – rádio e publicidade (Rádio Voz de Lisboa e Rádio Peninsular) e onde se estreou a Orquestra de Caçadores 5, logo a seguir baptizada de “Alerta Está”, a pedido do maestro Sílvio Pleno, que a dirigia, e que seria após o 25 de abril transformada na Orquestra Ligeira do Exército. Colaboraram entre, outros artistas profissionais, Hermínia Silva, Ada de CastroFlorbela Queiroz (que se fardou de soldado), João Maria Tudela, Rui de Mascarenhas, Júlio César e Tonicha. Este espetáculo foi transmitido em direto nos EAL e também em várias outras estações, nomeadamente Rádio Ribatejo, Emissora Oficial de Angola e Rádio Clube de Moçambique. Realizei posteriormente mais dois grandes espetáculos desta série no Teatro Monumental, transmitido em direto na RTP1, e outro no Coliseu dos Recreios. Também colaborei na produção e apresentação de um espetáculo militar realizado por Luis Andrade designado “Jeep Jeep”, transmitido em direto da Tobis, com chaimites, jeps, canhões, etc. Em dezembro de 1974, Vasco Lourenço, então Governador Militar de Lisboa, convidou-me a apresentar o espetáculo de Natal da Região Militar de Lisboa no Coliseu dos Recreios, como reconhecimento por ter sido o criador do Alerta Está“.

Fichas radiofónicas (5, 1ª parte) – Locutoras

Não são histórias de vida, mas simples discursos em direto que retirei de entrevistas a Luís Garlito dadas por locutoras (e a intérprete de um folhetim especial) para o programa A Minha Amiga Rádio, na Antena 1). Onde se fala de emissões em direto, de folhetins radiofónicos, de brincadeiras e de acasos durante as emissões. As locutoras eram de emissões de continuidade, participavam em programas, raramente dirigiam esses programas (a divisão de trabalho era forte), uma fez relatos de futebol, outra deu a voz ao serviço de despertar de uma empresa de telecomunicações, uma era chamada de voz sorridente, uma fez um pequeno programa de horóscopos. Todas conciliaram a vida profissional com a vida de casa. Uma coisa descobri agora: a locutora, que dá a voz, teve uma profissão ao longo da vida, ao contrário das cantoras, também a usarem a voz, que deixavam os palcos quando se casavam.

Dora Maria: “Comecei a estagiar na Renascença, estive num estágio de dois meses. Foi novembro e dezembro. No princípio de janeiro entrei logo no quadro da Rádio Renascença. Tinha como diretor e dono da Renascença nessa altura o falecido e saudoso monsenhor Lopes da Cruz. Foi exatamente quando eu entrei foi para alargar o período de emissão que a Renascença tinha naquela altura. Trabalhava só das 18:30 às 23 ou 24 horas. E quando eu entrei foi para assegurar o período das 8 horas da manhã. Eu ia muito cedo, às sete horas. […] Passado pouco tempo, eu sabia que estava sozinha na Renascença. Não havia ninguém naquela altura. E começo a ouvir, de repente, ao piano uma melodia fantástica, uma coisa de, sei lá, irreal, uma melodia patética. […] Eu, quando entrei no corredor, passado pouco tempo, eu e a senhora Maria [empregada da limpeza da estação], começo a ouvir novamente aquele disparate todo de uma sinfonia sem pés nem cabeça. Eu disse: “eu tenho de ver o que é, não posso ir-me embora, tenho de saber o que se passa”. Abri a porta da sala e era o gato que tinha ficado lá dentro e o piano estava aberto e era o gato a passar por cima das teclas. Foi das coisas, uma das grandes aventuras, tinha eu 21, 22 anos”.

Clarisse Guerra: “vou para os Irmãos Costa Dias, casa que hoje já não existe, e que era o representante da Knorr nessa altura [ela tornou-se vendedora de margarinas, depois de uma entrada falhada em estágio na rádio]. E também estava a ensinar as meninas a trabalhar e há um indivíduo que foi bastante conhecido na nossa rádio, que foi o Gilberto Cotta, hoje já desaparecido, que tinha um programa no Rádio Clube Português, que passou nos Irmãos Costa Dias, que eram um cliente dele e ouviu a minha voz. Ouviu a minha voz e voltou atrás. Como é? Quer ver? Interessou-se, não vale a pena dizer, achou ótimo e convidou-me para o programa dele, logo. Talismã. Onde fui locutora durante dez anos”.

Edite Maria: “Foi no Rádio Clube, que foi sempre a minha casa mãe, foi a casa onde trabalhei toda a minha vida e quando o Rádio Clube Português acabou e ficou a Rádio Comercial eu senti muito. Eu sou uma pessoa extremamente afetiva. Daí as minhas nuances para baixo e para cima. O sorriso mascara muita coisa, como sempre. Creio que o António Miguel [seu marido] estava a dirigir a secção dos folhetins no Rádio Clube e… Porque apareceu um folhetim português? Era uma novela portuguesa, não era adaptação, não veio de fora. Não me lembro, não estou recordada. Sei que esse folhetim era oferecido por uma editorial e que depois oferecia a quem ouvisse o folhetim um livro com receitas. Eu fazia num desses folhetins uma rapariga muito feia, era uma cópia da coxinha, repare, o célebre folhetim da coxinha. Era muito feia, havia uma paixão. Foi escrita por pessoas nossas daqui, não há adaptação dos folhetins da Íris d’Ávila”.

Maria João Aguiar: “Não foi a primeira vez que fizemos uma emissão numa loja nem numa montra. Já o tínhamos feito numa discoteca da rua do Carmo, que também já não existe. Mas foi sem dúvida uma das emissões que mais prazer nos deu arquitetar porque teve muito mise-en-scène. Recriar a moda dos anos 30, descobrir as modelos adequadas, penteá-las da maneira certa, fazê-las maquilhar da maneira certa, descobrir roupa que se pudesse integrar nessa época”.

Imagens: Dora Maria (Nova Antena, 17 de janeiro de 1969), Clarisse Guerra (Rádio & Televisão, 9 de setembro de 1967), Edite Maria (Rádio & Televisão, 28 de abril de 1962), Maria João Aguiar (Diário Popular, 19 de abril de 1968).

Ruy Castelar e “Noite é Nossa”

Já escrevi sobre isto, mas recupero:

Noite é Nossa foi um programa das 3:00 às 6:00 em Rádio Clube Português de 1967 a 1975: “muitos ouvintes, que toda a noite trabalham nos mais diversos misteres, escolhem a nossa música e as nossas palavras como companhia para as suas labutas”. Música de jazz ao ié-ié, da cançoneta romântica ao fado sentimental, lia-se na Plateia, 9 de abril de 1968.

Para além de Ruy Castelar, e entre outros, noto as presenças no programa de José Ribeiro, Jorge Dias, João Paulo Guerra, José Matos Maia, Cândido Mota, Helena Isabel e Tany (Albertina) Belo, esta desaparecida prematuramente. E colaborações como a de Manuel Monteiro, no Porto. Uma verdadeira escola da rádio!